O som do relógio na sala avisava que o novo dia estava começando. Um garoto entrava agora no mundo dos adultos, aquelas batidas do Cuco marcavam que começara ali o primeiro dia de sua nova vida como rapaz crescido. Oh, dezenove anos! Quantas coisas passavam pela cabeça deste rapaz? Ainda não havia caído a ficha de seus dezenove outonos vividos. Só agora, naquele escritório do seu finado pai e distante da festa proporcionada por seus familiares, é que ele começou a pensar nesta nova fase. Todo o recinto estava em escuridão, apenas a Luminária da mesa iluminava fracamente o escritório, e embalado por uma música suave no fundo da sala, o rapaz pensa sobre tudo que já viveu, e tudo que irá viver a partir daquele momento.
Subitamente, a porta do escritório se abre. Um senhor, de muita idade, entra. Era o avô do nosso protagonista. Ele, por um instante, observa o neto e relembra do seu falecido filho. O olhar do neto era o mesmo do seu filho. Isso remete o senhor às velhas lembranças: Ele recorda da festa de dezenove anos do seu filho. E algumas lágrimas teimam a descer no rosto dele...
Suas memórias são cortadas pela voz do neto. Ele volta para esta realidade, esta realidade que o seu filho não está aqui. Ele olha para seu neto, e pergunta o que ele estava fazendo ali, sozinho e no escuro. O rapaz desconversa, desvia o olhar e resmunga qualquer coisa do tipo "só estou com um pouco de sono". O avô conhecia aquele jeito, e tomou uma cadeira e se sentou em frente ao neto. Com um semblante tão sereno, o avô começou a falar com o seu querido neto:
-Hoje, olhando para você, lembrei-me do meu filho, que Deus o tenha. Ele ficou nesta mesma sala, pensando e vagando, enquanto o relógio batia os 12 sinos no seu aniversário. Nesta ocasião, quando seu pai fez dezenove anos, dei para ele um livro especial. Era um livro de capa dura, da cor azul. Tinha o título de "Meu Espelho". Suas páginas estavam em branco, era uma espécie de diário. Ele comentou dias atrás do seu aniversário que iria montar um livro dos melhores momentos da sua vida. Infelizmente, seu pai deixou o livro pela metade, ele morreu muito jovem, no auge dos seus vinte e quatro anos, acometido por uma doença grave. Deixou você, ainda um bebê, e sua mãe sozinhos. Antes de sua partida, no leito de morte, ele me devolveu o livro que lhe dei, disse que gostaria que ficasse comigo. Como eu queria ter dito mais coisas para seu pai naquele momento! Quantas oportunidades eu tive de falar com ele que o amava tanto, mas não demonstrei? E hoje, quase 20 anos depois da sua morte, eu lhe passo o livro que seu pai me deixou, como se eu estivesse me redimindo de tudo que eu poderia ter lhe feito e dito, mas não o fiz. Também lhe dou um outro livro, igual ao do seu pai, porém totalmente em branco, para que você escreva suas memórias. É o seu presente de aniversário...
Naquele momento, lágrimas descem no rosto de ambos. O neto recebe das mãos do seu avô os livros, e os segura perto do peito como um tesouro. O vovô se retira do aposento, deixando o garoto folhear o livro do pai e ler todas as lembranças do pai. Ele chega na última página do livro, e vê escrito duas frases de declaração. Ambas escritas à base de caneta de tinta, e nenhuma foi escrita recentemente. Nesta página havia "Eu te amo, meu filho", escrito pelo avô do garoto. E abaixo, estava um "Eu também te amo, meu pai", escrito pelas mãos do pai do rapaz. Uma declaração de amor entre pai e filho, sem dúvida alguma.
O que o rapaz não sabe é que há uma declaração na última página do seu livro. Uma declaração do seu pai, dias antes dele morrer. Mas deixemos isso para uma outra história...
Não deixe para Amanhã o que você pode fazer Hoje,
Pois o Amanhã pode ser Nunca Mais...


Um comentário:
Anjo Gabriel...
de todos seus textos esse é o mais bonito...juro que fiquei emocionada com todas as palavras escritas nesse texto...nunca vi tanta palavras de carinho e amor em um so texto..Vou ficar anciosa para ler o proximo...
atraves desses seus textos te conheço cada vez mais e confirmo a pessoa maravilhosa que es...não é atoa que você é o ANJO GABREIL...sua mãe deve se orgulhar de ter você como filho e seu avô de ter você como neto...e eu me orgulho de ter você como um grande amigo!!
Beijoss
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