No meu quarto havia um espelho. Um antigo e bonito espelho, quase do meu tamanho, feito no início do século passado. Ganhei-o do meu avô, antes do mesmo falecer.
Uma noite em particular, eu estava sem sono. A janela estava aberta, e o frio invadia meu quarto. Aquele vento gélido se espalhava por todo o local, revirando até mesmo alguns papéis da minha escrivaninha. Não suportei, apesar da preguiça, deixar a janela aberta. Também fechei as cortinas, deixando tudo escuro, apenas com alguns feixes de luz da Lua para não deixar o local em uma escuridão total. Aproveitei que levantei da cama e catei os papéis avulsos que caíram da cômoda. Recolhi tudo, retornei-os de volta ao local e fui me deitar de novo, com a incrédula esperança de poder dormir...
As horas passavam, e o tic-tac do relógio da minha cabeceira deixava isso bem claro. Eu olhava para o teto, para as paredes, ligava alguma música, mas não conseguia ter sono. E então, aconteceu estranho algo. A música que estava tocando parou, e o relógio parou de contar o tempo. Ouvi um gemido, vindo do espelho. Pensei ser algum gato vagabundo escondido atrás do espelho, que invadiu meu quarto no momento em que a janela estava aberta. Levantei-me da cama com certo pesar no corpo, e fui ligar a luz, que para a minha surpresa, não acendia. Abri as cortinas, para a luz da Lua iluminar meu quarto. Ouvi de novo o gemido vindo do espelho, que mais parecia um choro.
Fui até o espelho, olhei nos arredores dele, mas nada encontrei, Naquele quarto, só havia eu e eu mesmo. Olho no espelho, e vejo o meu reflexo embaçado, e ouço de novo um choro. Desta vez, o choro vem de trás, da minha cama. Assusto desta vez, o choro era nítido, parecia uma criança pequena. Olho espantado para trás e vejo realmente um garoto, de uns 5 ou 6 anos talvez, recostada na cabeceira da cama, recolhida na sua existência e no seu choro. Um choro triste, baixo e melódico. Chego perto, aproximando devagar, muito assustado com aquilo que estou vendo. Vejo a criança chorar, e sento-me na minha cama, ao lado dela. Olho para ela e pergunto:
- Por que está chorando, criança?
- Porque tenho medo... - Respondeu a criança.
- E tem medo de quê? - Perguntei, curioso.
- Tenho medo do azul, assim como você tem medo do escuro... - Respondeu ele, com a voz tímida e amedrontada.
Naquele momento, entendi. Cheguei mais perto dele, e com ternura, o abracei forte. Ele chorou mais ainda, enquanto sentia o conforto do abraço. Ficamos assim por algum tempo, e quando o relógio voltou a correr, lembro-me de não mais sentir a presença da criança. Do mesmo jeito inexplicável que ela veio, ela foi embora. Neste momento, quando tudo parecia calmo, consegui cair em sono.
domingo, 22 de junho de 2008
Um choro
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